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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Festa de Reis da Lapinha reafirma tradição e mantém vivo o legado de Padre Pinto

“Cristo vem se manifestar pra todos os povos através dos Santos Reis"

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

 Por Hieros Vasconcelos

Todo início de janeiro, a Lapinha volta a ocupar um lugar central na vida cultural e religiosa de Salvador. É ali, em um dos territórios mais antigos da cidade, que a Festa de Reis se renova há décadas como expressão de fé, cultura popular e identidade coletiva. Longe de ser apenas uma celebração litúrgica, a festa é parte da história viva da capital baiana, atravessando gerações e reafirmando, ano após ano, a força de uma tradição construída pela comunidade, valorizada e reconhecida a nível nacional graças à dedicação e ao amor de Padre Pinto, que por mais de 30 anos esteve à frente da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, ponto central da festa.

Amanhã, dia 6 de janeiro, Dia de Reis, será o ponto alto da festa. A Lapinha se transforma em um palco vivo de tradição, arte e fé, recebendo moradores de toda a cidade e até de outros municípios. A programação começa cedo, com a alvorada festiva, seguida do Terço, e se estende durante todo o dia com missas, louvor, adoração e apresentações que mostram a força cultural do bairro. Um dos momentos mais emblemáticos do dia é o desfile do Terno da Anunciação, que abre os cortejos dos Ternos de Reis, evocando o anúncio da Epifania e tornando-se símbolo da história, arte e religiosidade da Lapinha.

A mensagem, conforme o coordenador da festa, Andrei Nascimento, é clara: “Cristo vem se manifestar pra todos os povos através dos Santos Reis, acolher, abraçar, não deixar morrer nossa verdadeira essência, que é a festividade e a alegria, mas, acima de tudo, dizer não ao preconceito, à intolerância religiosa, pois Deus não olha religião, não olha gênero, não olha raça; ele olha o que temos no nosso coração”.

Andrei destaca a resistência, a união e o acolhimento como princípios da celebração. “A mensagem que deixamos é resistência e que tenhamos a ousadia de dizer para Salvador que a festa permanece viva. A Festa de Reis não é uma festa profana, ela reúne o profano e o religioso onde faz encontro de irmãos. Que a gente possa se unir, se abraçar”, reforça o coordenador.

Para o coordenador, embora todo o festejo, iniciado no dia 3, seja marcado por fé, fraternidade e pela propagação das palavras de Cristo, é no dia 6 que a celebração revela sua verdadeira dimensão. “Para Salvador, essa importância é grande: é uma festa que une o religioso ao profano e ali faz essa junção que traz fraternidade, que mostra que somos todos irmãos. Um momento em que a Igreja sai das quatro paredes para evangelizar através da festa, através da arte, da dança, das músicas, porque são cantos próprios. Um momento de evangelização que acolhe as pessoas e que coloca em prática nossa consciência social: a festa é também uma fonte de renda, abre um leque cultural, econômico e litúrgico”, afirma.

Segundo ele, a liturgia da festa tem características próprias, que permitem que a celebração dialogue diretamente com a vida da comunidade. “Nesse dia, acontece o atravessar das fronteiras da Igreja Católica porque sai da missa tradicional, do rito, e tem um rito próprio. A liturgia vem celebrar a verdadeira essência da vida da comunidade, da vida do povo, então os cantos são alegres, a gente acolhe a todos”, explica Andrei.

Padre Pinto - Cada momento do dia 6 reforça a tradição e a alegria que atravessam gerações, e é também uma oportunidade de reafirmar o compromisso com a memória e legado de Padre Pinto, sacerdote que marcou profundamente a história da Festa de Reis da Lapinha.

Falar de Padre Pinto, para o coordenador da festa e para moradores da Lapinha, é inevitável. José de Souza Pinto foi pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição da Lapinha por cerca de 30 anos, entre a década de 1970 e o início dos anos 2000, período em que revitalizou a festividade, integrou os desfiles dos Ternos de Reis à programação religiosa e criou o Terno da Anunciação

Artista plástico e bailarino por formação, Pinto ficou nacionalmente conhecido em 2006 por celebrar a missa da Festa de Reis com trajes inspirados em tradições afro-brasileiras, levando uma dimensão cultural e comunitária mais ampla ao evento. Depois desse acontecimento, a festa, que ja era um patrimônio popular singular em Salvador, ficou ainda mais em evidência, conquistando a empatia de muito mais gente.

Padre Pinto também assinou obras artísticas e símbolos presentes na igreja e no Largo da Lapinha que hoje fazem parte da memória visual do festejo. Padre Pinto faleceu em 2019, aos 72 anos.

“Eu nasci dentro do período da festa. Não posso deixar de falar de Padre Pinto, grande revitalizador dessa festa. Foi quem me engajou, vivi com Padre Pinto na igreja, antes de morrer ele me deu essa responsabilidade. Teve um período que precisei me afastar por circunstâncias da vida, e as pessoas me procuravam pra dizer que descaracterizaram a festa, a beleza, a alegria, a representação dos povos nômades”, relata Andrei.

O retorno de Andrei à coordenação, em 2025, marcou uma retomada consciente da essência que Padre Pinto sempre defendeu. “Voltei em 2025 e recuperei a verdadeira essência e celebração porque a liturgia precisa celebrar a vida do povo. A Festa de Reis é muito mais do que folclore. É memória, é espiritualidade, é história viva”, afirma.

Mesmo enfrentando desafios pessoais e comunitários, como a falta de apoio para a realização da celebração, Andrei mantém firme a missão que lhe foi confiada. “É uma missão que prometi a Padre Pinto cumprir, quando ele estava em seu leito de morte. Não é fácil, não temos apoio dos órgãos governamentais, então tudo é feito por nós, com ajuda da comunidade, num trabalho bonito e cheio de fé, cheio de amor para que aconteça sempre mais belo, fraterno e repassando as palavras de Cristo”, afirma.

Dias anteriores: preparação, Caruru e Ternos de Reis

Antes do grande dia, a festa mobilizou a comunidade com intensa programação. No dia 3, o Bando Anunciador percorreu as ruas da Lapinha, anunciando o início dos festejos, seguido da Celebração Eucarística à noite.

No dia 4, ao meio-dia, aconteceu o tradicional Caruru dos Santos Reis, momento de confraternização em torno do alimento, celebrado como ato humano e sagrado de partilha. “Mais do que um prato típico, o Caruru representa sentar à mesa, celebrar juntos e reafirmar a identidade cultural do território e a convivência comunitária”, explica Andrei. À noite, a missa reforçou a dimensão religiosa da festa.

No dia 5, às 18h, a Missa em Ação de Graças pelos barraqueiros celebrou o esforço dos trabalhadores e preparou a comunidade para o desfile dos Ternos de Reis, uma das expressões mais marcantes da festa. As bênçãos das casas e barracas marcaram a aproximação do ponto alto no dia seguinte, mantendo o espírito de união e acolhimento.

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