Em Camaçari, município estratégico da Região Metropolitana de Salvador, a fibromialgia tem sido mais do que um diagnóstico médico: tornou-se um retrato da dor invisível enfrentada por centenas de moradores e, ao mesmo tempo, um campo de disputa política.
A fibromialgia é uma síndrome crônica caracterizada por dores generalizadas, fadiga intensa, distúrbios do sono, ansiedade e depressão. Apesar de reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, a condição ainda é cercada por preconceito e desinformação. Para quem convive com a doença, o sofrimento não é apenas físico — é também social e institucional.
A dor que não aparece nos exames
Diferente de outras enfermidades, a fibromialgia não surge em exames laboratoriais ou de imagem. O diagnóstico é clínico, baseado na avaliação médica e nos relatos do paciente. Em Camaçari, pacientes relatam dificuldades para conseguir laudos, acesso a especialistas e medicamentos contínuos pelo sistema público.
“É uma dor que ninguém vê, mas que a gente sente todos os dias”, relata uma moradora que aguarda há meses por atendimento com reumatologista. Sem acompanhamento adequado, muitos acabam afastados do trabalho e enfrentam dificuldades financeiras.
Entre promessas e projetos de lei
Nos últimos anos, a pauta da fibromialgia passou a ocupar espaço na Câmara Municipal. Projetos de lei que reconhecem a pessoa com fibromialgia como pessoa com deficiência para fins legais e garantem prioridade em filas e atendimento especializado têm sido debatidos — alguns aprovados, outros travados em comissões.
A discussão, porém, divide opiniões. Enquanto vereadores defendem a ampliação de direitos e políticas públicas específicas, críticos apontam uso eleitoreiro do tema. Em períodos pré-eleitorais, associações de pacientes denunciam que a causa ganha visibilidade, mas perde força após as urnas.
Falta de políticas públicas estruturadas
Especialistas alertam que o problema vai além da criação de leis simbólicas. É preciso estruturar a rede de atendimento com:
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Capacitação de médicos da atenção básica
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Atendimento multidisciplinar (reumatologia, fisioterapia, psicologia)
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Distribuição regular de medicamentos
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Programas de atividade física assistida
Sem essas medidas, afirmam, o reconhecimento legal pouco muda a realidade prática.
A luta das associações
Em Camaçari, grupos de apoio e associações têm desempenhado papel fundamental na orientação de pacientes e na pressão por políticas públicas. São essas organizações que organizam audiências públicas, campanhas de conscientização e dialogam com o Executivo municipal.
Para muitas mulheres — maioria entre os diagnosticados — a mobilização coletiva tem sido a única forma de enfrentar o abandono institucional.
Política x Luta
O embate em Camaçari escancara uma questão maior: quando a saúde pública vira palanque, quem paga o preço são os pacientes. Entre discursos e disputas partidárias, pessoas com fibromialgia seguem aguardando atendimento digno, respeito e reconhecimento real.
A dor é diária. A luta também.









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