Jornalismo com Credibilidade.

Jornalismo com Credibilidade.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

O 2 de Julho reafirma a democracia nas ruas de Salvador

Se existe um aspecto que atravessa gerações no Dois de Julho é o protagonismo popular

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

Por Hieros Vasconcelos

Bandeiras da Bahia tremulando nas janelas, fanfarras ecoando pelas ruas do Centro Histórico, manifestações políticas dos mais diferentes matizes, famílias inteiras acompanhando os carros do Caboclo e da Cabocla e milhares de pessoas ocupando o trajeto entre a Lapinha e o Campo Grande. Foi assim que Salvador voltou a celebrar, ontem, os 203 anos da Independência do Brasil na Bahia, transformando o Dois de Julho, mais uma vez, em uma grande manifestação de civismo, memória e democracia.

Como ocorre há décadas, o cortejo reuniu muito mais do que autoridades e instituições militares. Religiosos, representantes de terreiros de candomblé e umbanda, católicos, evangélicos, estudantes, artistas, sindicalistas, turistas e moradores caminharam lado a lado, reafirmando a característica mais marcante da maior festa cívica do estado: ser um espaço onde diferentes ideias convivem nas mesmas ruas, tendo como elo a valorização da história e da liberdade conquistada pelo povo baiano em 1823.

A programação começou ainda ao amanhecer, com a tradicional alvorada no Largo da Lapinha. Em seguida, ocorreu o hasteamento das bandeiras e, às 9h, os carros do Caboclo e da Cabocla deixaram o Pavilhão da Lapinha acompanhados pelas filarmônicas, fanfarras municipais, estaduais e da Região Metropolitana, Caboclos de Itaparica, grupos culturais e milhares de pessoas que acompanharam o desfile até o Centro Histórico. Para o governador Jerônimo Rodrigues, o Dois de Julho representa "uma marca simbólica muito forte" e mantém viva a memória daqueles que lutaram pela Independência, destacando personagens populares como Maria Felipa e a participação do povo baiano na consolidação do Brasil como nação.

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

Já o prefeito Bruno Reis destacou, durante a abertura das comemorações, que a data reforça a identidade de Salvador e preserva uma tradição que une cultura, civismo e pertencimento, mantendo viva a história da Independência da Bahia.

Se existe um aspecto que atravessa gerações no Dois de Julho é o protagonismo popular. Não há divisão entre quem participa e quem apenas assiste. O povo acompanha os carros históricos, canta o Hino ao Dois de Julho, aplaude as filarmônicas e transforma todo o percurso em uma grande celebração coletiva.

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

A aposentada Áurea Martins, moradora da Soledade, acompanha o desfile desde criança. Da porta de casa, ela diz que o Dois de Julho sempre foi um dos momentos mais esperados pela família. "Minha mãe preparava a casa, colocava a bandeira na janela e dizia que esse era o dia mais bonito da Bahia. Hoje faço a mesma coisa com meus netos. Quando o Caboclo passa, a emoção é a mesma de muitos anos atrás."

Poucos metros adiante, o pedreiro Alberto Gomes aguardava ansioso a passagem dos carros alegóricos. Frequentador assíduo da festa, ele conta que não consegue imaginar um ano sem participar do cortejo.

"Todo ano eu venho. Quando o Caboclo aparece, arrepia. É uma emoção difícil de explicar. Parece que a gente está agradecendo a quem lutou para que a Bahia fosse livre."

Ao longo do percurso, moradores ornamentaram fachadas, sacadas e portas com bandeiras da Bahia, tecidos, flores e elementos inspirados na Independência. As intervenções artísticas preparadas especialmente para este ano reforçaram o colorido das ruas entre a Lapinha e o Terreiro de Jesus, tornando o cenário ainda mais simbólico.

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

Protestos reforçam tradição democrática e disputa política

Se a celebração preserva sua dimensão histórica, também continua sendo um espaço privilegiado para o exercício da cidadania. Como acontece há décadas, manifestações de diferentes correntes políticas dividiram as ruas com as fanfarras, filarmônicas e grupos culturais, reafirmando o caráter plural do Dois de Julho.

Em ano eleitoral, representantes da esquerda e da direita caminharam entre a multidão, recebendo aplausos e críticas em diferentes momentos do percurso. Cartazes em defesa da democracia, da educação pública, da valorização da cultura, do combate ao racismo e da preservação ambiental se misturaram a cobranças dirigidas tanto à Prefeitura de Salvador quanto ao Governo do Estado.

Uma das manifestações que mais chamou atenção foi a de ambientalistas e moradores que criticaram a política de arborização da capital. As árvores cenográficas e os grandes portais decorativos instalados ao longo do percurso tornaram-se alvo de reclamações. Muitos participantes afirmaram que as estruturas estreitavam a passagem, dificultavam a circulação do público e comprometiam a visibilidade do desfile, justamente em uma celebração conhecida por aproximar povo e cortejo.

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

Para a diretora de imagem Carla Freitas, o Dois de Julho permanece atual justamente porque consegue reunir diferentes manifestações em torno de um mesmo ideal de liberdade. "É um momento em que o povo coloca na rua, sim, sua indignação. Mas também a sua fé de que as coisas vão ficar melhores. A luta pela independência é todo dia. Por isso essa festa reúne revolta e alegria, protesto e esperança. É isso que faz o Dois de Julho continuar tão vivo depois de 203 anos", afirma.

Apesar das divergências políticas e das reivindicações apresentadas ao longo do trajeto, o clima permaneceu pacífico. Enquanto grupos levantavam bandeiras em defesa de suas causas, crianças corriam atrás das fanfarras, idosos cantavam o Hino ao Dois de Julho e turistas registravam cada detalhe daquela que continua sendo uma das maiores manifestações cívicas do país. A

convivência entre opiniões distintas acabou reafirmando uma das principais marcas da festa: a democracia exercida nas ruas, onde diferentes vozes compartilham o mesmo percurso sem perder de vista a homenagem aos heróis e heroínas da Independência.

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

Por causa de jogo da Seleção, Volta da Cabocla é antecipada

Se o desfile do 2 de Julho representa a consagração da Independência da Bahia, a Volta da Cabocla, realizada tradicionalmente 3 dias depois, simboliza a despedida dos personagens mais queridos da festa. Neste ano, no entanto, o retorno dos carros com as esculturas que representam as entidades da religiosidade brasileira acontecerá um dia antes (5), por causa do jogo da Seleção na Copa, no domingo (6).

Diferentemente do cortejo do dia 2, a Volta da Cabocla ao Pavilhão da Lapinha acontece em ritmo acelerado, quase correndo, em um percurso mais curto e dinâmico que preserva o caráter popular da tradição, sem perder a reverência aos símbolos da Independência.

Presença constante nas celebrações, a vereadora Marta Rodrigues afirma que faz questão de acompanhar também esse momento. "A Volta da Cabocla é uma tradição muito bonita. É um momento também de fé, porque ver o cortejo praticamente correndo, cheio de energia para guardar esses símbolos do nosso estado, sempre com enorme respeito à Cabocla, que é quem brilha e representa a luta das mulheres. É reafirmar o compromisso com a democracia, a liberdade e a nossa história."

O funcionário público Moisés dos Santos também faz questão de acompanhar o retorno dos carros todos os anos. Para ele, a rapidez do cortejo não diminui o significado espiritual da celebração. "A Volta da Cabocla é praticamente correndo, mas continua sendo um momento de oração e de fé. Tem música, alegria e muita energia, mas as pessoas acompanham com respeito. Muita gente vai agradecendo graças alcançadas e fazendo novos pedidos. É uma despedida muito emocionante."

"Mais do que o retorno dos carros alegóricos à Lapinha, a Volta da Cabocla representa o encerramento simbólico de um ciclo iniciado na manhã do dia 2 de julho. É a forma encontrada pelo povo baiano de agradecer, mais uma vez, aos homens e mulheres que lutaram pela Independência da Bahia e renovar o compromisso de preservar uma tradição que atravessa gerações, unindo civismo, cultura, religiosidade e identidade popular" afirma o umbandista Clécio Gonçalves. 

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

0 comments:

Postar um comentário

Destaques do Dia

Moraes quebra sigilos de empresa ligada a Willer Tomaz, amigo de Flávio Bolsonaro

Medida inclui apreensão patrimonial até o limite de R$ 6 bilhões O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal) O ministr...