A celebração deste ano também foi marcada pela mensagem do Papa Leão XIV aos católicos de todo o mundo
Hieros Vasconcelos
Sob um céu cinzento e entre as ladeiras de pedra do Pelourinho, milhares de fiéis transformaram, ontem, as ruas cercadas de história e identidade soteropolitana em um grande caminho de fé, esperança e acolhimento durante a celebração de Corpus Christi.
Com a Catedral Basílica do Santíssimo Salvador, no Terreiro de Jesus, completamente tomada por devotos para a Missa presidida pelo arcebispo de São Salvador da Bahia e primaz do Brasil, cardeal Dom Sergio da Rocha, a programação deste ano foi marcada por uma procissão inédita que conduziu o Santíssimo Sacramento até o Santuário Arquidiocesano de Santo Antônio Além do Carmo, unindo duas importantes celebrações da Igreja Católica: a Solenidade de Corpus Christi e a tradicional Trezena de Santo Antônio.
Durante a celebração, que se coloriu ainda mais com as homenagens a Santo Antônio, em faixas e camisas, Dom Sergio destacou a importância de Corpus Christi como momento de união entre os povos e de fortalecimento do Evangelho. "Estamos aqui celebrando mais um Corpus Christi na capital baiana. Conectados com o mundo todo nas palavras de Jesus por um planeta com paz, com amor e com caridade", afirmou.
O cardeal lembrou que Salvador foi palco das primeiras manifestações públicas de Corpus Christi no Brasil, ainda em 1549. Para ele, levar o Santíssimo Sacramento às ruas simboliza que a fé cristã não deve permanecer restrita ao interior das igrejas, mas estar presente na vida cotidiana, nas famílias, nos ambientes de trabalho, nas relações sociais e até mesmo nas redes sociais.
A celebração deste ano também foi marcada pela mensagem do Papa Leão XIV aos católicos de todo o mundo. O pontífice classificou as procissões de Corpus Christi como um "testemunho corajoso de fé", lembrando que Deus continua presente e acompanha a humanidade em sua vida cotidiana.
PROCISSÃO é marcada por REFLEXÃO em ruas que guardam marcas do crime mais grave da história da humanidade
Ao final da Missa, centenas de fiéis acompanharam o Santíssimo Sacramento pelas ruas históricas do Centro, num gesto emblemático: o Corpo de Cristo atravessou o Pelourinho, território marcado por capítulos de dor da história brasileira, como a escravidão, mas também por séculos de resistência, espiritualidade e construção da identidade do povo baiano. A escravidão, fruto do racismo. Conforme a ONU, é considerado maior crime da história da humanidade e está na lista das piores violações aos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
"A imagem que precisamos ter não é de um Cristo sofrido, punitivo, cheio de penitências, mas a de um companheiro capaz de compreender as dores humanas, oferecer conforto diante das dificuldades e inspirar gestos de solidariedade e perdão. Passar por aqui é muito simbólico. É onde as fés se encontram", comentou a socióloga Angela Zamma.
Uma das Paradas foi em frente a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, onde a Irmã dade, de mulheres negras, aguardavam a passagem do corpo de Cristo e sua profissão, para louva-lo e reverencia-lo numa demonstração de harmonia e perdão. A Rosário dos Pretos é conhecida por seu grande diálogo com povo preto e os elementos religiosos afro-brasileiros.
Mais do que uma demonstração pública de fé, a procissão parecia traduzir um sentimento coletivo de acolhimento, esperança e paz interior. Ao longo da caminhada, o silêncio das orações se misturava aos cânticos religiosos e ao som dos passos sobre as pedras centenárias. O clima chuvoso contribuiu para criar uma atmosfera de contemplação que emocionou muitos participantes.
A chegada ao Santuário Arquidiocesano de Santo Antônio Além do Carmo reservou um dos momentos mais emocionantes da manhã. Os fiéis foram recebidos pelo tradicional tapete de Corpus Christi confeccionado pela comunidade, com a participação de crianças, jovens e moradores do bairro.
As crianças tiveram participação especial na confecção dos tapetes, uma das tradições mais antigas de Corpus Christi. Com desenhos coloridos e símbolos da fé cristã, o trabalho ajudou a transformar a chegada da procissão em um momento de beleza e devoção.
Colorido e repleto de símbolos ligados à Eucaristia, o tapete foi preparado para a passagem do Santíssimo Sacramento no santuário. Como destacou um dos sacerdotes envolvidos na programação da trezena, os tapetes representam "o caminho bonito, enfeitado e feliz por onde Jesus passa".
Entre os participantes estava Virgínia Almeida, que acompanhou toda a procissão pelas ruas do Centro Histórico. Emocionada, ela afirmou que a caminhada proporciona um sentimento de serenidade e conexão espiritual difícil de encontrar no cotidiano.
"A gente se sente feliz e calma com a procissão. Ela traz reflexão e paz para o coração. Caminhar ao lado do povo baiano em homenagem a Cristo é muito especial. O silêncio, as ruas, a história, tudo tem representatividade na espiritualidade interior", disse.
PROCISSÃO INTEGRA PROGRAMAÇÃO DA TREZENA DE SANTO ANTÔNIO
A procissão integrou a programação da Trezena de Santo Antônio, iniciada em 31 de maio no Santuário Arquidiocesano de Santo Antônio Além do Carmo. Neste ano, a preparação para a festa do santo conhecido como o "Pai dos Pobres" propõe reflexões sobre a Santa Missa e o significado da Eucaristia na vida cristã.
Segundo a Arquidiocese de Salvador, além dos momentos de oração e formação, os fiéis são convidados a participar de gestos concretos de solidariedade, por meio da doação de alimentos não perecíveis, fraldas infantis e geriátricas destinadas às ações sociais da comunidade.
O ponto alto das homenagens acontecerá no próximo dia 13 de junho, quando a Igreja celebrará Santo Antônio com alvorada, missas ao longo do dia e a tradicional procissão pelas ruas dos bairros de Santo Antônio Além do Carmo e Barbalho.
Entre casarões centenários, ruas de pedra, tapetes coloridos e um céu carregado de chuva, Corpus Christi transformou o Centro Histórico de Salvador em um espaço de encontro, memória e esperança. Para muitos dos participantes, a caminhada representou mais do que uma tradição religiosa: foi a oportunidade de renovar a fé e reafirmar valores como amor, paz, solidariedade e acolhimento.
O papa também incentivou os fiéis a transformarem o próprio coração por meio dos ensinamentos de Cristo, tornando-o mais paciente, generoso e compassivo.







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