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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Salvador será laboratório de censo inédito sobre população em situação de rua

O Censo Nacional da População em Situação de Rua tem três objetivos principais: contar, caracterizar e orientar a estruturação e o fortalecimento de políticas públicas

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

Por Rayllanna Lima

Salvador será uma das primeiras cidades do país a testar como o Brasil pretende contar, pela primeira vez em escala nacional, a população em situação de rua. A capital baiana integra a prova piloto do 1º Censo Nacional da População em Situação de Rua, operação inédita do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que vai avaliar metodologia, questionários, equipes, abordagem, tecnologia e logística antes do levantamento definitivo, previsto para 2028.

A etapa piloto será realizada entre os dias 31 de agosto e 4 de setembro de 2026, simultaneamente em cinco capitais: Salvador (BA), Manaus (AM), Belo Horizonte (MG), Florianópolis (SC) e Goiânia (GO). A apresentação técnica do projeto ocorreu na terça-feira (9), no Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia (CEAO/UFBA), no bairro Dois de Julho.

O evento contou com a presença do presidente do IBGE, Marcio Pochmann, do superintendente do instituto na Bahia, André Urpia, além de representantes do poder público, universidades, organizações sociais e movimentos ligados à população em situação de rua. Em entrevista à Tribuna da Bahia, Marcio Pochmann afirmou que o levantamento responde a uma lacuna histórica das estatísticas oficiais brasileiras. Segundo ele, o país ainda não possui uma metodologia nacional capaz de dimensionar e caracterizar essa população de forma comparável entre municípios, estados e regiões.

“Há um reconhecimento no Brasil a respeito de um segmento que não tem um domicílio próprio e que, nos últimos períodos, vem ganhando dimensão e visibilidade nos centros das grandes cidades brasileiras. Esse é um tema, em geral, tratado por municípios e, no máximo, por alguns estados. A realização desse censo nacional vai permitir a definição de uma metodologia para o reconhecimento de um problema de ordem nacional”, disse.

O Censo Nacional da População em Situação de Rua tem três objetivos principais: contar, caracterizar e orientar a estruturação e o fortalecimento de políticas públicas. A proposta é criar uma base estatística robusta, padronizada e comparável em âmbito nacional, superando a fragmentação atual entre levantamentos municipais, CadÚnico, estudos acadêmicos e registros da assistência social.

O público-alvo da pesquisa segue a definição da Política Nacional para a População em Situação de Rua, estabelecida pelo Decreto nº 7.053/2009. O grupo inclui pessoas em pobreza extrema, com vínculos familiares interrompidos ou fragilizados, sem moradia convencional regular, que utilizam ruas, áreas degradadas, ocupações ou unidades de acolhimento como espaço de moradia, sustento, pernoite temporário ou moradia provisória.

Na prática da operação, o IBGE vai considerar pessoas que dormiram nas ruas, em instituições ou em ocupações não residenciais por pelo menos uma noite nos sete dias anteriores à entrevista. O critério é considerado essencial para captar não apenas quem está visivelmente nas calçadas no momento da coleta, mas também pessoas que circulam entre ruas, abrigos, ocupações, equipamentos públicos e outros espaços de pernoite.

Para Pochmann, a principal contribuição do IBGE será oferecer uma fotografia precisa da realidade, enquanto a formulação das respostas caberá ao poder público. “O IBGE é responsável por mostrar como a realidade é. A política pública tem outra dimensão, que é dizer como deve ser. A partir desse conjunto de informações, haverá a possibilidade de uma convergência de políticas que possam não apenas minorar o problema, mas, quem sabe, superá-lo”, disse.

Um dos pontos centrais da prova piloto será testar a abordagem. A operação envolve um público diverso, com diferentes trajetórias de vida, níveis de vulnerabilidade, circulação territorial e vínculos com os serviços públicos. Por isso, o IBGE prevê a participação de pontos focais, pessoas externas ao instituto indicadas por prefeituras, assistência social, saúde ou sociedade civil, para apoiar o contato inicial com os entrevistados.

Teste prepara levantamento de 2028

A prova piloto deste ano faz parte de uma trajetória que deve se estender até 2028. Segundo o cronograma apresentado pelo IBGE, uma segunda prova piloto será realizada em 2027, já com ajustes derivados da primeira experiência. Em 2028, a previsão é de uma simulação geral antes da coleta nacional definitiva, marcada para o período de 3 a 7 de julho.

O levantamento nacional deverá ocorrer em todos os estados, mas o recorte municipal ainda está em estudo. A tendência inicial é incluir municípios com mais de 100 mil habitantes, enquanto o instituto avalia custos e viabilidade para ampliar a cobertura a cidades menores, onde também há presença de pessoas em situação de rua.

De acordo com Pochmann, a continuidade do projeto depende da garantia de recursos nos próximos anos. O presidente do IBGE lembrou que o orçamento aprovado para 2026 permite realizar a etapa inicial de preparação, mas o censo exigirá manutenção do investimento para chegar à operação nacional. “Uma operação estatística dessa natureza não se faz do dia para a noite. Precisa de preparação, leva um, dois, três, quatro anos. Para realizar isso, partimos de uma demanda da sociedade acerca da necessidade de ter esse tipo de informação, que nós não temos hoje”, afirmou.

O presidente do instituto também destacou que o Brasil pode se tornar referência internacional na construção dessa metodologia. Segundo ele, em diálogos com institutos estatísticos de outros países, incluindo integrantes do G20 e dos Brics, o IBGE não encontrou um modelo consolidado que pudesse ser simplesmente aplicado à realidade brasileira. “Nós estamos envolvidos na construção de uma metodologia que olhe a realidade brasileira, mas que certamente ganhará dimensão para outros países. Há, por parte da comunidade internacional, um olhar muito interessado em relação a esse trabalho”, afirmou Marcio Pochmann.

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