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segunda-feira, 7 de abril de 2025

“A segurança pública será o ponto fraco de todos os governantes”, diz Joviniano

O CIENTISTA político Joviniano Neto analisa os movimentos da direita nacional, com destaque para a pré-candidatura de Ronaldo Caiado

Foto: Reprodução

Guilherme Reis

Editor de Política

Henrique Brinco

Repórter

Paulo Roberto Sampaio

Diretor de Redação 

Em entrevista à Tribuna, o cientista político Joviniano Neto analisa os movimentos da direita nacional, com destaque para a pré-candidatura de Ronaldo Caiado, e avalia os cenários políticos da Bahia e do Brasil para 2026. Ele comenta ainda a estratégia de ACM Neto, as chances de Tarcísio de Freitas em uma disputa presidencial e os desafios enfrentados por Jerônimo Rodrigues no governo estadual. Para Joviniano, a segurança pública será o principal calcanhar de Aquiles de todos os governantes no próximo pleito. “É uma demanda nacional que está sendo mal enfrentada”, alerta.

Tribuna – Como é que o senhor viu essa movimentação de Ronaldo Caiado aqui em Salvador e o lançamento dessa pré-candidatura dele? E o senhor acha que é viável, entre as candidaturas da direita?

Joviniano Neto – É uma antiga liderança da direita, que nasceu inclusive naquele 1989, quando foi candidato à Presidência da República com aquele chapelão. Ele cometeu um engano terrível, que foi criticar o nordestino, embora ele mesmo dissesse que a mulher dele era baiana, de Feira de Santana, que ele era daquele negócio, daquela grande organização dos defensores e proprietários rurais. É, dos governadores do União Brasil, o que tem mais destaque. Já foi reeleito, não pode ser mais candidato. Então, ele está ressuscitando o sonho de 89. Há uma disputa pela liderança da direita paralela. No caso dele, nem é paralela — é concorrente mesmo, explícita, de Bolsonaro. Para ACM Neto, é uma coisa boa, porque o partido dele vai ter um candidato que vai bem por onde quer que vá. Ele se afasta de Bolsonaro, que, na eleição passada, sabendo que Lula ganhava todas as eleições na Bahia, procurou se manter afastado de Bolsonaro. Agora ele vai ter um candidato que é do mesmo partido, mesmo que lá na frente, no segundo turno, ele apoie o Tarcísio ou outro mais explicitamente ligado a Bolsonaro. Mas, no segundo turno, ele está achando que talvez chegue fraco. Então, a situação é: ele é útil para o União Brasil para poder ter candidatos, se for competitivo. Se não for, para negociar o espaço. ACM Neto já começa compartilhando o candidato e não precisa ficar na base do “qualquer um que serve”, como foi o “tanto faz”, que acabou com a campanha dele na eleição passada.

Tribuna – Ele é bem-quisto pelo agro…

Joviniano Neto - Agora é um fulano que apresenta as qualidades do governo de Goiás. O que implicaria que seria muito interessante fazer uma análise aprofundada do que é que ele fez em Goiás mesmo. E a posição das entidades de direitos humanos não é muito favorável a ele, não. O governo dele foi aprovado e foi reeleito. O que é que ele fez em Goiás? E como ele tratou as oposições do movimento social? Isso, na hora que ele virar vidraça, vai todo mundo procurar saber. Para não acontecer o que aconteceu com o [Fernando] Collor, né? Que Collor dizia que tinha feito uma maravilha em Alagoas, como governador, e, na verdade, não era essas maravilhas todas. Na hora que ele virar vidraça, vamos começar a procurar identificar o que aconteceu com ele.

Tribuna – Agora, o senhor acha que ACM Neto está realmente firme em disputar o Governo do Estado? Ou acha que ele pode tentar, por exemplo, emplacar ser vice de Tarcísio de Freitas ou indicar algum nome?

Joviniano Neto – Isso eu não sei. Porque tudo indica que ACM Neto é candidato a governador. Só não seria se o negócio tivesse uma pressão muito grande de que não tem a chance.

Tribuna – O senhor acha que Tarcísio de Freitas é um nome viável, inclusive podendo derrotar Lula em um eventual segundo turno?

Joviniano Neto – Que deve derrotar Lula são outros quinhentos. Que é um nome viável, é. É preferido de boa parte dos empresários do Sul. É um candidato paulista. Tem a vantagem de ser governador de São Paulo e tem a desvantagem de ser candidato paulista, não ser um nome nacional. Mas não tem as arestas de Bolsonaro, né? Porque Bolsonaro, às vezes, se perde pela boca.

Tribuna – O senhor acha que Bolsonaro, no fim, vai apoiar Tarcísio? Ou ele pode tentar colocar Michelle, por exemplo?

Joviniano Neto – O interesse do que chamam de Faria Lima é que ele apoie o Tarcísio. O interesse dele é se manter vivo com uma liderança importante e referência nacional. E, na cabeça dele, ele quer se manter como a referência. E é possível que ele faça o que Lula fez. Só que Lula indicou um candidato na última hora. O candidato pode ser Tarcísio, pelo peso, pela influência, dos financiadores, da marcha de apoio pelo fazendeiro... Ou pode ser, para marcar posição, o filho dele. Para no segundo turno, se houver segundo turno — que normalmente há, porque o Lula nunca venceu no primeiro turno —, haver um candidato da direita mais competitivo, se for o Tarcísio. Se for questão de dinheiro, apoio empresarial, apoio da grande mídia, Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, é Tarcísio.

Tribuna – O que o senhor acha que essa baixa popularidade de Lula se deve?

Joviniano Neto – Essa história da baixa popularidade... Essas pesquisas precisam ser explicadas. Porque eu tenho a explicação. Eu sou parte da explicação. Como é que Lula cai nas pesquisas e continua ganhando todas as vezes, em toda simulação de eleição? Porque as pesquisas de Lula, o governo Lula, está lá embaixo, tem a rejeição de não sei quantos por cento... E depois, quando se simula candidatura, Lula ganha todas? Por que o pessoal conta o ótimo e o bom a favor de Lula, conta o ruim e péssimo contra ele, e não leva em conta o regular? É o meu caso. Se alguém perguntar como é o governo Lula, eu não digo que é ótimo e bom não, porque nós temos muitas limitações. Mas eu boto como regular. Mas, na hora de votar, entre Lula e a direita, eu voto em Lula. Então o problema está na sua avaliação, né? Tem pesquisas que não são confiáveis. Institutos que não são confiáveis. Não vou dizer o nome aqui agora, não. Agora, se as pesquisas forem confiáveis, explica. O problema é ganhar nas pesquisas para eleição a presidente e perder na avaliação do governo. É o recorte.

Tribuna – Agora falando da Bahia: o que o senhor acha dessa estratégia do grupo de Jerônimo de ter uma chapa com três governadores para 2026?

Joviniano Neto – Acho que é uma estratégia meio perigosa. Vai ter dois candidatos para senador do mesmo partido e vai ter que conciliar a aliança. Otto Alencar dizia, com muita competência, que o sucesso do grupo na Bahia é a aliança do vermelho com o azul. Vermelho, PT. Azul, o grupo dele. Como é que essa aliança... como é que o azul fica? Com dois candidatos a senador do PT? É uma coisa a se avaliar. Vai ter que ficar com a vice, claro. Mas só isso é suficiente?

Tribuna – Qual a sua análise do governo Jerônimo?

Joviniano Neto – Jerônimo tem um perfil, uma imagem, diferente de Rui Costa. Mas tem uma parte forte, que, na minha visão, é a questão da Educação. Ele tem, inclusive, inaugurado e implantado mais colégios em tempo integral de muito boa qualidade. Os prédios são de boa qualidade. A gestão pedagógica tem que ser preparada, ter salas amplas, ter teatro, ter espaço para o esporte. São prédios muito bons. Eu conheço pessoalmente o de Salinas. É muito bom. E o pessoal tem me dito que outras cidades são iguais ou até melhores, porque têm piscina. O de Salinas não tem, porque é perto do mar. Então, na parte da educação, ele vai ter para apresentar em campanha um bocado de imagens de estudante alegre, com prédios bonitos na educação. Isso ele vai ter. E parece que o estilo dele de conversar com os prefeitos, com a liderança, é mais cordial. Tão cordial que tem prefeitos do interior, que apoiaram ele na eleição, que ficam até meio enciumados, porque dá atenção demais a prefeitos antigos, adversários. É um estilo mais cordial, tem uma ênfase grande na educação e está de campanha, né?

Tribuna – Jerônimo tem trazido muitos prefeitos da oposição também para a base dele. O senhor acha que isso vai ajudar na possibilidade de ele se reeleger?

Joviniano Neto – Vai se reeleger para inibir o crescimento de ACM Neto, que tem uma fama, que eu não sei se é verdadeira, de que não trata muito bem os aliados.

Tribuna – O senhor acha que ACM Neto é um nome viável? Acha que ele pode conseguir se eleger, considerando a margem pequena com a qual foi derrotado em 2022?

Joviniano Neto – Ele é o candidato mais competitivo que a oposição tem, e é um candidato natural. Tem uma memória, um recall muito grande de eleitores que votaram na eleição passada. E boa parte dos que votaram têm a tendência a continuar a votar, porque foram frustrados com o governo. Porque muita gente que vota no candidato, depois que ele é eleito e não atende todas as expectativas, muda. Mas o que votou e o candidato dele não se elegeu, sempre pode achar: “Se ele tivesse sido eleito, seria bom.” Então, ele tem um recall positivo dos que votaram nele e negativo dos que se queixaram de que ele não tratou bem os aliados.

Tribuna – A questão da segurança pública é o ponto fraco do governo Jerônimo e pode atrapalhá-lo na eleição?

Joviniano Neto – A segurança pública vai ser o ponto fraco de todos os governantes, a começar por Lula, nessa eleição. Porque é uma pauta que está sendo muito colocada, se dado muita atenção, dada prioridade à pauta. E os governos dos estados, que são os principais responsáveis pela segurança, dividem a visão negativa da pauta com o governo federal. Só que as soluções que se apresentam à questão da segurança são incapazes de produzir o resultado desejado. As soluções até agora são: mais militarização, mais equipamento da polícia, mais ação da polícia na guerra contra os marginais, e mais armamento, mais equipamento, mais ação de guerra. Não resolvem. Nunca resolveu, em lugar nenhum do mundo, a questão da violência. Isso é uma solução que parece rápida e eficaz, quando a solução verdadeira envolve inteligência, uma capacidade de atuação direta nas comunidades, oferecendo perspectivas aos jovens, perspectivas de futuro. Então, é a educação. Educação a partir das escolas, organização da comunidade, prestação de serviço, colocação do Estado nas comunidades, prestando serviço — e não só entrando com polícia. Isso é uma coisa que dá resultado, mas não aparece no resultado imediato. Então, o que aparece no resultado imediato é armamento e combate. Só que armamento e combate terminam elevando a sensação de insegurança. Cada vez que você ouve “houve troca de tiro, morreu não sei quantos”, isso, em vez de aumentar a sensação de segurança, piora. E piora efetivamente. Porque o bandido que acha que vai ser morto, ele fica até mais violento, mais arriscado. Então, a questão de segurança é uma questão nacional. Há uma demanda nacional por segurança. E isso vai ser usado contra os governantes. A solução que é apresentada, que muita gente adota — a solução punitivista e de guerra —, não resolve. 

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