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terça-feira, 22 de abril de 2025

Salvador reza por um Papa que aproximou a Igreja dos pobres

Em meio ao cenário de comoção mundial, na capital baiana também se concentra parte da responsabilidade pela escolha do novo pontífice

Foto: Divulgação/Reprodução

Por Hieros Vasconcelos

O mundo amanheceu mais silencioso ontem com a notícia da morte do Papa Francisco, aos 88 anos, em sua residência na Casa Santa Marta, no Vaticano. Líder da Igreja Católica desde 2013, o pontífice argentino que escolheu o nome de Francisco em homenagem ao santo dos pobres deixa um legado de fé viva, coragem pastoral e compromisso com os mais vulneráveis. Sua morte encerra um ciclo transformador para a Igreja — e inaugura uma fase de expectativa global que também mobiliza Salvador, cidade de fé pulsante e sede da arquidiocese mais antiga do Brasil.

Em meio ao cenário de comoção mundial, na capital baiana também se concentra parte da responsabilidade pela escolha do novo pontífice. O arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, cardeal Dom Sérgio da Rocha, integra o colégio cardinalício e pode, nos próximos dias, se reunir no Conclave, na Capela Sistina, no Vaticano, para eleger o sucessor de Francisco. Ele prefere não adiantar o assunto. “É hora de rezar, agradecer e confiar no Espírito Santo”, disse Dom Sérgio, durante coletiva à imprensa concedida na manhã de ontem, na Catedral Basílica do Santíssimo Salvador, no Pelourinho.

A coletiva também contou com a presença do vigário geral da Arquidiocese de Salvador, monsenhor Gabriel dos Santos Filho, e do padre Manoel Filho, vigário episcopal para Cultura, Educação e Comunicação. Juntos, reforçaram o sentimento de gratidão e unidade da Igreja local neste momento de despedida, mas também de esperança.

Na ocasião, Dom Sérgio destacou o papel de Salvador, afinal, neste momento de transição para o mundo católico, a capital baiana assume papel simbólico e concreto. Além de sua relevância histórica e espiritual, sede da primeira arquidiocese brasileira, Salvador é berço de uma religiosidade popular que se manteve viva e resistente por séculos. A cidade — profundamente marcada pela herança católica e pela presença de santos negros, irmandades seculares e devoções comunitárias — sente de forma particular a partida de um Papa que sempre valorizou os povos esquecidos, as periferias do mundo e os caminhos da cultura popular.

“Só temos a agradecer ao Papa Francisco”, afirmou Dom Sérgio, em meio à emoção visível. “Ele nos ensinou a olhar para os pobres, a amar a Igreja como uma mãe misericordiosa, a sair ao encontro do outro. É por isso que Salvador, com sua fé vibrante e acolhedora, se identifica tanto com esse Papa", pontuou.

Ainda ontem, a Arquidiocese organizou uma missa em memória de Francisco, às 17h, na Catedral Basílica. Outras paróquias também estão promovendo momentos de oração e homenagem ao pontífice. “A melhor forma de honrá-lo é seguir seus ensinamentos. Sermos uma Igreja mais próxima, mais humilde, mais apaixonada por Jesus e pelo povo”, concluiu Dom Sérgio.

Salvador se manterá em vigília para o descanso eterno do Papa

À medida que o mundo católico se prepara para mais uma etapa de discernimento, Salvador se mantém em vigília. A cidade da fé e da resistência agora reza pelo homem que desafiou estruturas, acolheu os marginalizados e mostrou que o poder da Igreja está na sua capacidade de amar. Antes da reunião dos cardeais para a escolha do novo Papa, a Igreja entra num tempo de oração e sufrágio pelo pontífice falecido. Segundo Dom Sérgio, trata-se de um momento de recolhimento e espiritualidade profunda. “Não se começa imediatamente a pensar em eleição. Primeiro, a Igreja se une em oração, pedindo a Deus o eterno descanso daquele que foi o sucessor de Pedro", afirmou. O responsável por conduzir a Igreja nesse período de Sé Vacante — quando a Sé Apostólica está vacante — é o camerlengo, função atualmente exercida pelo cardeal Kevin Farrell. O camerlengo (ou camarlengo) é o prelado encarregado da administração temporária do Vaticano após a morte do Papa. Cabe a ele verificar oficialmente o falecimento, lacrar os aposentos papais, cuidar dos assuntos cotidianos da Santa Sé e convocar os cardeais para a Congregação Geral, que antecede o conclave.

Dom Sérgio, como cardeal eleitor, pode participar da Congregação e do conclave. À Roma, o arcebispo já garantiu que irá. “São encontros de oração e escuta. Há uma troca de experiências e discernimento sobre os desafios atuais da Igreja e o perfil do novo Papa. Tudo é vivido à luz da fé, com grande responsabilidade”, explicou.

Em Salvador, todas as paróquias estão sendo orientadas a celebrar missas em sufrágio por Francisco ao longo da semana, e, passado o tempo do luto, a rezar pela eleição do novo Papa. “É uma missão que envolve toda a Igreja, não só os cardeais. O povo de Deus tem papel fundamental: rezar, confiar, esperar”, disse o cardeal.

Líder moral do século XXI: legado construído com gestos e amor pelo Brasil

Francisco foi o primeiro Papa latino-americano, o primeiro jesuíta e o primeiro a escolher o nome de Francisco, inspirando-se em São Francisco de Assis. Desde o início de seu pontificado, recusou os luxos do cargo e escolheu viver na simplicidade. Abandonou o Palácio Apostólico e se instalou na Casa Santa Marta; dispensou os sapatos vermelhos, usava cruz de ferro no lugar do ouro e se mostrava acessível a todos — de chefes de Estado a catadores de lixo.

Essa postura inspirou cristãos em todo o mundo, inclusive em Salvador, onde a fé se traduz diariamente em práticas de solidariedade. “Francisco mostrava que o mais importante é o coração. Ele chamava todos a viver o Evangelho de forma autêntica, a sermos uma Igreja em saída, missionária, que vai ao encontro de quem mais precisa. Isso tocou muito a Igreja do Brasil, e especialmente a de Salvador”, reforçou Dom Sérgio.

A encíclica “Laudato Si’”, em que Francisco convoca o mundo a cuidar da Casa Comum, teve forte repercussão entre comunidades eclesiais de base e movimentos sociais do Brasil. Sua firme defesa da Amazônia, dos migrantes, dos povos originários e das minorias o colocou como um dos grandes líderes morais do século XXI.

Francisco foi corajoso diante das resistências e expectativa é que sucessor siga mesmo caminho

Apesar de admirado por grande parte dos fiéis, Francisco enfrentou fortes resistências internas na Cúria Romana. Suas posições mais abertas e inclusivas, sua crítica ao clericalismo e seu apelo por uma Igreja menos centralizada incomodaram setores conservadores. Ainda assim, avançou em reformas cruciais, como a descentralização do poder no Vaticano e o fortalecimento da sinodalidade, promovendo uma escuta ativa das comunidades.

“Ele viveu seu ministério com coragem. Não recuava diante dos desafios, mas também não perdia a ternura. Era firme e doce ao mesmo tempo. Sua morte é uma perda enorme, mas sua vida foi um presente. Francisco foi um dom de Deus para a Igreja e para a humanidade”, disse o cardeal de Salvador. Voz brasileira - Com sua participação no conclave, Dom Sérgio será uma das vozes brasileiras no processo que definirá o novo líder da Igreja Católica. Questionado sobre o perfil desejado para o próximo Papa, ele preferiu manter o tom de reserva: “Agora é o momento do silêncio, da oração e da escuta. Ainda não é hora de falar de nomes ou perfis. Mas é certo que o mundo espera um sucessor à altura do testemunho de Francisco.”

O cardeal, no entanto, fez uma advertência: “Seria muito doloroso se houvesse retrocessos. Francisco abriu caminhos de diálogo, inclusão e compromisso social que não podem ser interrompidos. A Igreja precisa continuar olhando para frente, com os olhos voltados para os pobres, os jovens, as famílias, os excluídos.” 

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