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segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Com mais farmácias nas esquinas, automedicação em Salvador expõe riscos à saúde

Como resultado das fiscalizações, a Vigilância Sanitária Municipal informa que foram instaurados 129 processos administrativos sanitários em 2024 e 98 até setembro de 2025, motivados por diferentes infrações

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia
Por Hieros Vasconcelos

Na Bahia, assim como em todo o Brasil, a automedicação se tornou um hábito cotidiano. Para grande parte da população, a solução para dores de cabeça, resfriados ou pequenas contusões está a um comprimido de distância, comprado em farmácias de fácil acesso. No entanto, o que parece um alívio rápido esconde riscos sérios à saúde. Em Salvador e no estado, onde há farmácias em praticamente todas as esquinas, algumas com vitrines chamativas e uma diversidade de produtos, cresce a preocupação sobre a busca excessiva pelo ‘bem-estar’ e os impactos do consumo indiscriminado de 'remédios e medicamento' — tanto os com prescrição quanto os “usuais” sem acompanhamento médico.

Segundo o Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico (ICTQ), cerca de 90% da população brasileira se automedica, um dos índices mais altos do mundo. Analgésicos, anti-inflamatórios e antitérmicos estão entre os mais utilizados sem prescrição, frequentemente de forma contínua e incorreta, podendo mascarar sintomas de doenças graves, causar dependência química e provocar danos a órgãos como fígado e rins, entre outros problemas.

O crescimento de farmácias na Bahia também evidencia um desafio da fiscalização. De acordo com o Conselho Regional de Farmácias da Bahia (CRF-BA), o estado possui atualmente 10.286 farmácias registradas, sendo 2.125 apenas em Salvador. Entre janeiro e setembro de 2025, foram identificadas 470 farmácias irregulares, sendo 78 clandestinas, funcionando sem alvará ou responsável técnico.

Como resultado das fiscalizações, a Vigilância Sanitária Municipal informa que foram instaurados 129 processos administrativos sanitários em 2024 e 98 até setembro de 2025, motivados por diferentes infrações, principalmente irregularidades no controle de medicamentos sujeitos a prescrição. 
 
Nos primeiros nove meses deste ano, 700 drogarias e 25 farmácias magistrais foram verificadas, analisando condições sanitárias, presença do responsável técnico e controle de substâncias que requerem fiscalização especial, incluindo antibióticos. “O objetivo é assegurar o uso seguro de medicamentos e proteger a população de riscos à saúde”, informa o órgão municipal em nota. Já pelo Conselho Regional de Farmácia da Bahia, foram realizadas até setembro 14.221 inspeções e lavrados 1.118 autos de infração.

A vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia da Bahia, Ângela Pontes, explica que o uso indiscriminado de medicamentos é mais comum do que se imagina e pode gerar efeitos preocupantes. “Quanto às pessoas que se automedicam com frequência, observa-se o desenvolvimento de patologias ligadas ao uso desnecessário de medicamentos que podem causar danos a órgãos como fígado e rins”, afirma.

Segundo Pontes, o consumo de anti-inflamatórios e analgésicos sem orientação é uma das práticas mais comuns, nem por isso menos graves. “Algumas pessoas tomam, por exemplo, anti-inflamatórios por qualquer pancada que levam. Alguns analgésicos usados com frequência podem levar a danos hepáticos. Outros, como o ácido acetil salicílico, muito utilizado, também podem causar hemorragia em pessoas com plaquetopenia”, alerta.

*Doenças sociais – Nas farmácias, parte da população busca mais do que um remédio: procura alívio para sentimentos comuns, como ansiedade, cansaço, irritação, dores de cabeça ou tristeza. Em meio a uma rotina cada vez mais acelerada, esses estados emocionais acabam sendo tratados como doenças que precisam de solução imediata. O resultado é uma corrida por comprimidos, impulsionada por estratégias de marketing que vendem a ideia de bem-estar instantâneo, quando o que muitas vezes se pede é pausa, autoconhecimento e cuidado com a saúde mental.

Além dessas questões, existem os danos físicos, o mascaramento de doenças sérias e o adiamento de diagnósticos. No caso dos antibióticos, o uso indevido contribui para o avanço da resistência bacteriana — um dos maiores desafios globais da saúde pública contemporânea.

Para os profissionais de saúde, a automedicação, embora culturalmente enraizada, precisa ser tratada como um problema coletivo. “Medicamentos não são inofensivos. A automedicação é um desafio de saúde pública e pode trazer consequências graves que poderiam ser evitadas com tratamento adequado e acompanhamento médico”, reforça André Nascimento, farmacêutico.

Farmácias se multiplicam como lojas: saúde ou consumo?

A multiplicação de farmácias nas cidades desperta uma pergunta simples: será que há tanta gente doente assim? Ou estamos diante de um fenômeno mais ligado ao consumo do que à saúde?

Estudiosos apontam que a alta concentração de farmácias nas cidades está mais relacionada à competição comercial e à facilidade de abertura de novos pontos do que à demanda real por atendimento. Segundo eles, o crescimento está ligado à expansão da venda de um bem-estar ilusório e à influência das estratégias comerciais das indústrias sobre o consumo de medicamentos.
 
Sentimentos – Os estudos destacam que o mundo vive um processo chamado pharmaceuticalization, em que sentimentos comuns, como ansiedade, insônia ou dor de cabeça, passam a ser tratados como doenças que precisam de medicamentos. A ideia de que existe uma pílula para cada incômodo é reforçada pela publicidade e pela conveniência das farmácias, que oferecem desde analgésicos até vitaminas “para melhorar o humor”. Campanhas publicitárias e estratégias de venda transformaram o remédio em um produto de consumo quase diário, presente em cada esquina.

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