Em casos de engasgo ou sufocamento, a ação rápida pode salvar vidas
Por Hieros Vasconcelos
Com a aproximação do Dia das Crianças, as ruas de Salvador e os bairros populares se enchem de cores, ofertas e brinquedos de todos os tipos, muitos com preços acessíveis. Porém, por trás da diversão e da expectativa de agradar os pequenos, esconde-se um perigo silencioso: brinquedos inadequados podem provocar acidentes graves, incluindo sufocamento, intoxicação e até a morte. O desafio é conciliar o desejo de presentear com a responsabilidade de preservar vidas, escolhendo produtos que estimulem a imaginação, promovam o desenvolvimento cognitivo e garantam a segurança das crianças.
O risco é real e imediato. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 94% dos casos de asfixia por engasgo acontecem em crianças menores de sete anos, justamente na fase em que objetos são levados à boca com frequência. Peças pequenas, tintas tóxicas ou materiais mal acabados já custaram a vida de crianças em diferentes regiões do país, e especialistas alertam que a atenção redobrada na escolha do brinquedo é indispensável.
De acordo com a Organização Criança Segura Brasil, os acidentes representam a principal causa de morte de crianças de 1 a 14 anos no país. Todos os anos, mais de 3.300 meninas e meninos perdem a vida, e 112 mil são internados em estado grave. Entre os casos fatais, destacam-se a sufocação com brinquedos e a intoxicação, demonstrando que mesmo atos de cuidado, como presentear, podem se transformar em tragédias quando não há atenção às normas de segurança.
Na Bahia, a situação também é preocupante. Em 2024, os acidentes domésticos envolvendo crianças e adolescentes registraram um aumento de 8% em relação ao ano anterior, passando de 8.520 para 9.114 casos. Embora os dados específicos sobre acidentes com brinquedos ainda não estejam sistematizados, é sabido que qualquer produto que contenha peças soltas, bordas afiadas, cordões longos ou baterias acessíveis pode se transformar em risco potencial de morte. A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) alerta para a necessidade de atenção redobrada, principalmente em períodos de grande circulação de brinquedos, como o Dia das Crianças.
A pediatra Dra. Stela Maria Gouvea Ávila reforça a importância da prevenção: brinquedos com peças pequenas, bordas afiadas ou substâncias tóxicas representam riscos iminentes. Ela recomenda sempre conferir se o produto possui selo do Inmetro e se é adequado à faixa etária da criança. “Pais e responsáveis devem observar atentamente cada brinquedo, inspecionar regularmente o estado de conservação e evitar qualquer objeto que possa se soltar durante a brincadeira”, alerta.
A experiência de famílias que já passaram por acidentes reforça a gravidade do problema. Maria Souza, mãe de um menino de três anos, lembra com emoção do momento em que seu filho engasgou com uma pequena peça de brinquedo: “Foi um instante de desespero. Ele parou de respirar e fiquei totalmente sem reação, mas me lembrando do treinamento em primeiros socorros, consegui ajudá-lo até a chegada do SAMU. Nunca mais vi um brinquedo da mesma forma.”
Ação rápida pode salvar vidas, mas importante chamar o SAMU
Em casos de engasgo ou sufocamento, a ação rápida pode salvar vidas. Para crianças menores de um ano, recomenda-se posicioná-las de bruços sobre o antebraço do responsável, apoiando a cabeça e aplicando cinco tapinhas firmes nas costas. Caso a
criança continue engasgada, deve-se virar cuidadosamente para o outro lado e aplicar compressões torácicas. Para crianças maiores, a manobra de Heimlich é indicada: posicionar-se atrás da criança, envolver a cintura com os braços, fazer um punho com uma mão, colocar sobre o abdômen, logo acima do umbigo, e aplicar compressões firmes e rápidas, repetindo até a obstrução ser removida. Sempre que houver suspeita de engasgo grave, buscar atendimento médico imediato é essencial, mesmo que a criança pareça recuperar-se.
No comércio de rua, o perigo aumenta com a presença de brinquedos sem selo do Inmetro, que atesta a conformidade do produto com normas de segurança. O Procon-BA e o Inmetro intensificam operações de fiscalização durante o período do Dia das Crianças, recolhendo produtos irregulares e orientando consumidores. Ainda assim, especialistas reforçam que a responsabilidade final recai sobre os pais e responsáveis, que devem observar com atenção o que estão levando para casa.
Além da segurança física, brinquedos inadequados podem comprometer o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança. Uma pedagoga consultada pela reportagem lembra que presentes devem estimular a criatividade, a autonomia e a interação social. “Brinquedos muito sofisticados ou que imitam armas também merecem reflexão, porque carregam mensagens que influenciam diretamente o aprendizado e a convivência das crianças”, destaca.
Neste Dia das Crianças, o gesto de presentear carrega afeto e alegria, mas pode se transformar em dor irreparável quando não há atenção suficiente à segurança. O alerta é para que pais, mães e familiares não se deixem levar apenas pelo preço baixo ou pela estética do brinquedo, mas façam escolhas conscientes, conferindo selo de qualidade, verificando a idade recomendada e, sobretudo, acompanhando a criança na brincadeira. Pequenos cuidados, aliados ao conhecimento de primeiros socorros, são capazes de evitar acidentes graves e salvar vidas, garantindo que a celebração seja de felicidade e proteção.







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