Em nível nacional, os grandes bancos privados fecharam 856 unidades apenas em 2024, segundo levantamento do Broadcast
Por Hieros Vasconcelos
O fechamento crescente de agências bancárias no Brasil e na Bahia tem gerado preocupações entre a população e os trabalhadores do setor. Embora a digitalização facilite transações, o fim dos espaços físicos tem levado a demissões, sobrecarga de funcionários e deixado muitos cidadãos desassistidos, especialmente idosos e pessoas com dificuldades de acesso à tecnologia. O problema é particularmente evidente em cidades menores, onde a agência é frequentemente o único ponto de atendimento disponível.
Na Bahia, ano a ano, dezenas de agências são encerradas, principalmente municípios do interior. Para se ter uma ideia, entre outubro de 2023 e agosto de 2025, 75 agências bancárias fecharam as portas na Bahia, contra apenas seis novas aberturas, de acordo com levantamento da Federação dos Bancários da Bahia e Sergipe (FEEB-BA/SE) e do Sindicato dos Bancários da Bahia. O saldo é de 69 agências a menos em menos de dois anos, o que tem causado um efeito dominó em comunidades e localidades que dependiam exclusivamente desses espaços.
Em nível nacional, os grandes bancos privados fecharam 856 unidades apenas em 2024, segundo levantamento do Broadcast. O cenário evidencia um dilema no setor bancário: como conciliar a modernização digital com a necessidade de manter atendimento humano de qualidade? Em meio à busca por eficiência, milhares de pessoas têm visto desaparecer o contato humano e o acesso direto aos serviços bancários, transformando a inclusão digital, em muitos casos, numa nova forma de exclusão social.
Um exemplo dessa realidade é o anúncio do fechamento da única agência do Itaú na cidade de Cruz das Almas, previsto para acontecer em 5 de novembro. Segundo estimativas da prefeitura, cerca de 20 mil correntistas serão afetados, muitos deles idosos que utilizam o local para pagamentos, saques e outros serviços essenciais. O episódio mobilizou moradores, vereadores e representantes trabalhistas em uma audiência pública na Câmara Municipal, expondo um problema nacional.
De acordo com o sindicato baiano, a redução de agências físicas sem planejamento adequado gera exclusão financeira, aumento de deslocamentos, maior exposição a fraudes e dificuldades para a população mais vulnerável. Na maioria dos casos o banco fala que realoca o trabalhadores, mas não é e o que ocorre na prática, deixando os que permanecem nas unidades sobrecarregados e em muitos casos adoecidos, conforme aponta o presidente do sindicato, Elder Pérez.
O impacto também se reflete nos empregos do setor. Entre outubro de 2023 e julho de 2025, foram 1.707 admissões contra 2.132 desligamentos, o que representa 425 postos de trabalho perdidos na Bahia, segundo dados sindicais. O resultado é sentido nas agências que permanecem abertas, onde os trabalhadores relatam acúmulo de funções e crescimento dos casos de adoecimento psicológico.
A situação se repete em cidades como Serrinha, que perdeu uma das duas agências da Caixa Econômica Federal em setembro de 2025. Funcionários foram realocados para unidades já sobrecarregadas, e a população reclama de enfrentar filas mais longas e prazos maiores para atendimento.
A presidenta da Federação dos Bancários da Bahia e Sergipe, Andreia Sabino, que esteve presente na audiência em Cruz das Almas, criticou duramente o encerramento das unidades. “Absurdo que o Itaú, cujo lucro líquido no ano passado foi de R$ 41,4 bilhões, insista em privar todo o município do mais elementar serviço bancário. A usura do sistema financeiro não tem limites”, declarou à imprensa.
Aposentados e pessoas com dificuldades de acesso à tecnologia são os mais afetados. Segundo o sindicato, os bancos têm ignorado o fato de que grande parte da população ainda não domina o uso de aplicativos ou sequer tem acesso à internet estável. O fechamento de agências e a falta de atendimento humanizado têm provocado um processo de exclusão financeira em massa, sobretudo em regiões periféricas e rurais.
Proposta - Diante desse cenário, o Sindicato dos Bancários da Bahia propõe alternativas para conciliar digitalização e atendimento físico, garantindo direitos de trabalhadores e acesso da população. Entre elas, destacam-se a criação de agências móveis em regiões afastadas, parcerias com prefeituras para disponibilizar espaços de atendimento, capacitação de correspondentes bancários para operações básicas e a revisão de fechamentos em localidades com alto número de correntistas dependentes de atendimento presencial.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban), por sua vez, afirma que o avanço da digitalização é parte do esforço de modernização e eficiência do sistema financeiro, mas reconhece a importância de medidas que garantam a inclusão. “O desafio é ampliar o acesso a todos, inclusive aos que têm menor familiaridade com meios digitais”, disse a entidade em nota pública publicada em 2024.







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