Para parte da população, a decisão é um presente para o corpo e para a rotina
Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia
Por Hieros Vasconcelos
Pelo sexto ano consecutivo, os brasileiros não precisarão adiantar os relógios. Enquanto muitos celebram o alívio de não ter que acordar mais cedo e enfrentar noites mal dormidas, comerciantes, bares, restaurantes e setores turísticos lembram que a medida poderia trazer mais movimento e consumo. O Ministério de Minas e Energia (MME) anunciou na última segunda-feira (30), que, em 2025, o país continuará sem horário de verão. Isso porque, explica, os reservatórios estão em níveis satisfatórios e o Sistema Interligado Nacional (SIN) funcionando dentro da normalidade.
Para parte da população, a decisão é um presente para o corpo e para a rotina: o relógio biológico não é mais desregulado, não há adaptação forçada ao novo horário e o sono se mantém regular. Mas a ausência da medida reacende um debate histórico sobre economia de energia, produtividade e lazer, e mostra que nem todos estão satisfeitos com essa realidade.
A pasta garante que não há necessidade da medida, mas, fora dos gabinetes, a realidade é outra: enquanto parte da população comemora viver há anos sem o “jet lag tropical”, setores da economia continuam pressionando pelo retorno da mudança de horário, que vigorou de forma quase ininterrupta por mais de oito décadas.
Desde 2019, quando o governo Bolsonaro extinguiu o horário de verão após estudos indicarem baixo impacto na economia de energia, os brasileiros vivem sem a tradição de adiantar os ponteiros em outubro. A decisão dividiu opiniões à época e até hoje desperta debates acalorados. Para muitos trabalhadores, sobretudo aqueles que começam o dia antes do nascer do sol, o fim foi um alívio. Já empresários do turismo, do comércio e do entretenimento lamentaram a perda de uma “ferramenta” que impulsionava seus negócios.
Para João Carlos, proprietário de um bar no centro de Salvador, o horário de verão é sinônimo de oportunidade. “Com o dia mais longo, as pessoas saem mais cedo do trabalho, passeiam, vão ao bar, ao restaurante. Nosso movimento cresce visivelmente nesse período, e isso se reflete no faturamento”, afirma. Segundo ele, o comércio como um todo se beneficia: shoppings, lojas de rua e setores de lazer aproveitam a maior circulação de clientes, gerando também contratações temporárias. Segundo ele, o horário de verão não é apenas uma mudança de relógio, mas um impulso econômico para quem vive do atendimento ao público.
Entidades - Na Bahia, a Federação das Indústrias (Fieb) já chegou a argumentar, em anos anteriores, que a medida ajudaria a reduzir custos e aumentar a produtividade. A Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) também defendia que o horário ampliava o tempo de lazer e consumo dos turistas, favorecendo destinos como Salvador e o Litoral Norte. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) reforçava a mesma linha: mais sol, mais gente nas ruas, mais movimento nos estabelecimentos. A Fecomércio também via na medida um estímulo ao varejo, já que consumidores se sentem mais seguros para sair e comprar ainda com luz natural. Procuradas pela reportagem, as entidades enviaram posicionamento sobre mais um ano sem horário de verão até o fechamento desta edição.
A medida, instituída no país em 1931, teve diferentes períodos de vigência ao longo das décadas, mas se consolidou nas últimas décadas como estratégia para economia de energia elétrica e estímulo à circulação diurna. “O ganho era visível em determinados setores, especialmente turismo e lazer, mas seu efeito sobre a saúde humana não podia ser ignorado”, lembra a professora Silvia Helena, especialista em cronobiologia da USP, em entrevista de 2019.
Nas ruas e nas praias opinião segue dividida
Em Salvador, as opiniões continuam divididas. O motorista de aplicativo José Almeida, morador de Cajazeiras, defende que a mudança não volte. “Já basta o trânsito e a insegurança. Se tivesse horário de verão, eu teria que sair ainda mais cedo, de madrugada. Prefiro como está”, disse.
Para Rita Nascimento, comerciante que mantém um bar no Rio Vermelho, a ausência do horário prejudicou o movimento. “Era bom para os bares, as pessoas chegavam depois do trabalho e ainda estava claro. A gente tinha mais movimento, mais consumo. Agora ficou mais difícil”, contou.
Quem frequenta as praias também sente a diferença. “Eu gosto de correr na Barra ou no Farol da Barra depois do trabalho. Antes, com o horário de verão, ainda estava claro às 19h. Hoje escurece mais cedo e a gente acaba voltando mais cedo para casa”, relatou Fernanda Oliveira, moradora de Ondina.
Turistas da Praia do Forte reforçam o mesmo ponto. “Aproveitar o dia até mais tarde era ótimo. Agora, escurece rápido e a gente precisa ajustar o roteiro”, disse o casal Paulo e Marina, de São Paulo.
Saúde - Pesquisadores em cronobiologia lembram que o horário de verão provocava alterações no relógio biológico, causando efeitos como insônia e queda de produtividade nos primeiros dias de adaptação. O MME usa esse argumento, aliado ao baixo ganho energético, para justificar a suspensão definitiva. Ainda assim, entidades econômicas insistem que os benefícios indiretos — como estímulo ao turismo e ao comércio — deveriam ser considerados.
“Nos primeiros dias do horário de verão, muitas pessoas apresentavam dificuldade para dormir, irritabilidade e queda de rendimento no trabalho. Para a saúde, a medida pode ser prejudicial”, afirmou a especialista Silvia Helena.







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